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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Como a gente se apega...


Era o meu último daquele dia e foi preciso um cuidado redobrado. Ah! Apenas um canudinho. Um canudinho comum, desses brancos, com listas vermelhas longitudinais, mais grossos que os normais, e com uma parte sanfonadinha numa das extremidades.

Enfiei-o, cuidadosamente, no orifício da máquina, conforme ditam as instruções. Lá dentro é um pouco apertado, mas há privacidade e só se ouve o som das engrenagens, pois é preciso muita concentração no sopro, senão pode dar caca e sabe-se lá o que pode sair. Mas eu nunca tive problemas. Já me sentia bastante seguro ao fazê-lo, todavia fui bastante cauteloso, em razão da atmosfera que se cria, sempre a mesma, como se fosse sempre a primeira vez. Uma estranha sensação que me toma, num misto de ansiedade, euforia e medo. Sim, medo. Um medo quase aterrorizante, e sinto o coração disparar ao ver o látex aos poucos tomando a forma imaginada, avolumando-se e crescendo em curvas do outro lado. Depois, a cor, no início em tom bege bem suave, transformando-se num nuance mais clarinho, quase branco. E o final era fantástico, senão perfeito, e a mim, ao menos, muito particularmente, era sempre muito, mas muito gratificante. Sabe? Sentir aquele cheiro de novo, assistir a primeira inspiração, ao andar desajeitado, ao movimento dos olhos e dos lábios, ao primeiro sorriso. I-nes-que-cí-vel!

Outro dia, acidentalmente, uma se foi. Como pode um maldito alfinete fazer tamanho estrago? Foi uma brincadeira boba entre elas... Repreendi-as, claro! Elas até emudeceram ao estranharem minha reação, mas também... Meu! Fico... (Desculpe! Não consigo controlar a emoção!)

Fico com os olhos cheios ao lembrar, e a imagem de vê-la esvaindo-se daquela maneira, sem poder fazer nada, é de matar. Quase como perder uma filha. Claro! Nunca deixo transparecer, mas tenho preferência pelas Mônica(s). Amo-as todas, sem distinção, mas sempre há aquela afinidade instintiva, inexplicável. Então, lá estava eu para tentar reconstruir a perfeição e a harmonia. Dez reais, a entrada. Até que não é caro e vale a pena. E fui tentar repor quem se fora tão cedo e de maneira tão tola. E parece que era para ser assim, pois dera tudo certo. E em casa já tenho (adultas, todas!): duas Jennifer(s) Connelly, duas Isabelle(s) Adjani e, com esta última agora, três Mônica(s) Bellucci.

E não há o que possa retratar a felicidade que me dá ao vê-las daquele jeito tão espontâneo e natural, brincando, conversando e rindo, nuas pela casa, e me perco ao admirar aquelas bolhas, como as de sabão, saindo das suas bocas ao falarem meu nome. Como a gente se apega! Como a gente se apega!


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Seleção Artificial

“... Feia!... Feia!... Feia!... Feia!... Bonita!... Feia!... Bonita!... Feia!... Feia!... Feia! ... Feia! ...” – Assim mecanicamente gritava o selecionador, entediado como sempre, sentado num desconfortável trono de madeira, enquanto afagava a sua longa e grisalha barba.

As selecionadas, as bonitas, sorridentes e satisfeitas por terem sido escolhidas, imediatamente entravam na gigantesca máquina por uma portinhola. E, em questão de minutos, ouvia-se o estrondo, o ritmo das engrenagens se acelerava, jatos de vapor e fumaça saíam pelos canos de descarga, e a energia então voltava a ser de cem por cento. Mas só durante uma ou duas horas, dependendo do grau de beleza, quando então, finda a energia, todas as lâmpadas voltavam a exibir aquela fraca luminosidade quase âmbar, até que outra das bonitas entrasse na máquina, repetindo todo o processo. Mas, há um bom tempo, a escolha de beldades rarefazia-se. 

E, no gigantesco pavilhão para onde eram destinadas as rejeitadas, uma imensidão delas aguardava novas ordens, até que dois dos encarregados pelo encaminhamento, não se contendo mais, tomados pelo desânimo e pela dúvida sobre o que fazer, abriram discussão:

“O selecionador já está velho e muito exigente. O que iremos fazer se ele raramente acha alguma delas bonita?” – Questionou inconformado, o mais jovem. Até que o mais experiente, num breve átimo de bom senso, teve uma idéia que achou brilhante. 

“Vamos reencaminhar as rejeitadas!” – Disse bastante decidido.

“Mas o selecionador irá devolver tudo de novo! Não adianta!” – Retrucou o mais jovem, ainda desanimado.

“Não! Não, se nós dermos um bom trato em cada uma delas. Elas não são ruins de todo. Veja. Analise. Por que toda essa nudez? Por que não as vestimos, com umas roupas mais sensuais que ressaltem o desenho do corpo, caprichamos nuns penteados, mais fashion, e, no rosto, maquiagem, muuuuita maquiagem? Hein?! Hein?!” 

E assim, reencaminhadas, as rejeitadas ficaram e estavam irreconhecíveis. E o velho selecionador, com um brilho diferente nos olhos, mas ainda muito babão, mudou radicalmente o discurso:

“... Bonita!... Bonita!... Bonita!... Bonita!... Lin-da!... Feia!... Bonita!... Ma-ra-vi-lho-sa!... Bonita!...”

E, desde então, com a máquina sempre em pleno funcionamento, nunca mais houve queda de tensão. Mas, apesar dos esforços, ainda assim sobravam algumas poucas rejeitadas, às quais, infelizmente, não houve outro destino: a reprodução sexuada.

Consequentemente, estas, muito a contragosto, tiveram que se submeter, tendo que copular com os então chamados reprodutores: uns homens esquisitos, altos, fortes, corpos atléticos, sempre seminus a exibirem orgulhosos suas destacadas barrigas-tanquinho. E, entre elas, completamente resignadas, tornou-se comum ouvir uma expressão, sempre repetida: “...Fa-zer-o-quê?! ...Fa-zer-o-quê?!”.